O impacto do sono na Segurança do Trabalho
No campo da Saúde e Segurança do Trabalho (SST), discutimos frequentemente riscos físicos, químicos e ergonômicos. No entanto, um fator cada vez mais relevante na prevenção de acidentes é a privação de sono e a fadiga ocupacional.
SAÚDE E SEGURANÇA
3/13/20263 min read
No campo da Saúde e Segurança do Trabalho (SST), discutimos frequentemente riscos físicos, químicos e ergonômicos. No entanto, um fator cada vez mais relevante na prevenção de acidentes é a privação de sono e a fadiga ocupacional.
O cenário brasileiro é preocupante.
Estudos nacionais indicam que cerca de 65% dos brasileiros apresentam má qualidade de sono, segundo pesquisas baseadas no “Mapa do Sono dos Brasileiros” e levantamentos conduzidos com apoio da Associação Brasileira do Sono (ABS). (Takeda)
Outros dados reforçam a magnitude do problema:
Aproximadamente 65,5% da população relata sono de má qualidade, segundo estudo publicado na revista científica Sleep Epidemiology.
Cerca de 21% dos adultos dormem menos de 6 horas por noite.
Estima-se que 73 milhões de brasileiros sofram de insônia crônica.
Do ponto de vista técnico, esse cenário configura um importante fator de risco para acidentes ocupacionais.
A literatura em segurança operacional demonstra que a privação de sono provoca alterações fisiológicas e cognitivas relevantes, incluindo:
• redução da atenção sustentada • aumento do tempo de reação • prejuízo na tomada de decisão • lapsos de memória operacional • aumento da fadiga física e mental
Esses efeitos impactam diretamente atividades críticas como operação de máquinas, condução de veículos, trabalho em altura, controle de processos industriais e atividades com risco elevado.
Em ambientes industriais e logísticos, a fadiga decorrente da privação de sono é frequentemente comparada ao efeito de substâncias psicoativas na capacidade cognitiva, sendo considerada um fator contribuinte em diversos acidentes graves e catastróficos.
Sono inadequado não é apenas um problema de saúde — é um fator de risco ocupacional.
Outro aspecto importante é que o próprio modelo de organização do trabalho pode agravar o problema, especialmente em situações como:
• trabalho em turnos ou noturno • jornadas prolongadas • sobrecarga cognitiva • pressão por produtividade • hiperconectividade digital
Ver credenciais de conteúdo
Inclusive, revisões científicas apontam que o uso excessivo de dispositivos digitais e mídias eletrônicas está associado à redução da duração do sono e aumento da sonolência diurna, afetando desempenho cognitivo e atenção.
Segurança
No Brasil: Estudos da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) indicam que o sono e a fadiga estão relacionados a 42% dos acidentes de trânsito. Outras estimativas da Abramet situam o número em torno de 20% dos acidentes, frequentemente sendo a terceira maior causa de acidentes, atrás do álcool/drogas e excesso de velocidade.
Em Portugal: Estudos recentes (2025) indicam que a fadiga e a sonolência são responsáveis por cerca de 30% dos acidentes rodoviários. Além disso, dados apontam que quase 10% dos condutores admitem ter adormecido ao volante pelo menos uma vez por ano.
Gravidade: Dirigir com menos de 5 horas de sono pode ser tão perigoso quanto conduzir sob o efeito de álcool, alertam especialistas.
Os períodos de maior risco ocorrem durante a madrugada (2h às 5h) e no início da tarde (13h às 15h).
Tecnologia e gestão da fadiga
Nos últimos anos, a tecnologia passou a desempenhar um papel estratégico na gestão de fadiga ocupacional.
Algumas soluções já utilizadas em empresas com atividades críticas incluem:
• Sistemas de detecção de fadiga em veículos e cabines, com visão computacional para identificar piscadas prolongadas, microcochilos e perda de foco do operador.
• Wearables e sensores biométricos, capazes de monitorar padrões de sono, frequência cardíaca e níveis de recuperação fisiológica.
• Plataformas de análise de dados ocupacionais, que correlacionam jornada, escalas de trabalho, absenteísmo e incidentes para identificar padrões de risco relacionados à fadiga. • Programas digitais de educação em higiene do sono, incorporados a estratégias de saúde corporativa.
Esse movimento representa uma evolução importante na gestão de riscos:
➡️ sair de uma abordagem reativa, focada apenas no acidente,
➡️ para uma abordagem preditiva e baseada em dados.
No contexto da Segurança do Trabalho moderna, discutir sono significa discutir fatores humanos, desempenho operacional e prevenção de acidentes.
Neste Dia Mundial do Sono, fica uma reflexão importante para profissionais de SST e gestores:
Estamos tratando a fadiga e a privação de sono como um risco ocupacional dentro das nossas organizações?
Porque, em muitos casos, o acidente não começa na máquina. Ele começa na noite mal dormida do trabalhador.
